domingo, 13 de julho de 2008

De Borges para Gilmar Mendes
Ou
Édipo e a Ética

Num conto de Ficções, Jorge Luís Borges nos conta a tragédia de um líder de uma conspiração política que foi traída. Ele toma a frente então das investigações sobre quem teria cometido a traição – quem quer que fosse deveria ser morto num teatro, num complô. Eis que este personagem descobre ser ele mesmo o traidor de si. Que faz ele? Cumpre o prometido, e se entrega em holocausto para ser baleado pelas costas, na Ópera.
Este conto foi posteriormente adaptado para o cinema por Bernardo Bertolucci, no filme A Estratégia Da Aranha – verdadeira obra-prima esquecida. No filme, o personagem chama-se Athos Magnani – numa evidente referência a Os Três Mosqueteiros, de Dumas –, e a trama se desenvolve com seu filho voltando a cidade natal do pai e tentando descobrir as circunstâncias de sua morte: suicídio? crime político? A inspiração do texto borgeano é obviamente o Édipo Rei, de Sófocles: o rei herói que destruiu a Esfinge é então juiz do crime de assassinato do antigo rei; descobre que o assassino é ele próprio, o juiz, e pune-se a si mesmo com igual rigor.
Borges, nesta época, confessara a Bertolucci que a inspiração havia sido também romance de Alexandre Dumas Pai, das poucas narrativas longas (ao lado de Moby Dick, de Herman Melville), que Borges admirava. Via em Athos o fiel da balança do quadrilátero que desmontou a corrupção contra o Rei de França, apesar do Rei de França. Athos, o mais velho, menos habilidoso na espada que os outros três, mas de um rigor moral que o impedia de ser seduzido por Milady de Winter (novamente). Athos, o único dos quatro que estava envolvido até o pescoço na trama que tentava derrotar – e tentava por isso mesmo e não é sem culpa que faz questão de ser ele, e não outro, a matar De Winter.
Preocupa-me como cidadão o recente golpe de estado desferido contra a Constituição, por um tribunal que tem por dever precípuo zelar pela mesma Constituição. Mas preocupa-me também como jovem psicanalista – como alguém para quem a civilização será sempre um problema biológico da espécie, cujas manifestações princeps são individuais, embora as coletivas interessem tanto quanto.
Recuso-me a interpretar o fato pelas vias individuais (seria de um mentalismo rasteiro), ou meramente institucionais. O episódio fala de nós, brasileiros, como modelo civilizatório.
Tenho para mim que o que mais admirava a Freud na peça de Sófocles não era o incesto, ou o parricídio, mas a capacidade heróica de o personagem reconhecer que cometeu esses dois crimes hediondos, punir-se, retificar-se, sem por isso perder a razão ou a vida – ao ponto de tornar-se profeta cego, como Tirésias. Isto é: a ética, o modo como a tragédia grega reencena em todas as peças (e não apenas em Antígona, como pode parecer numa visada rápida) as condições íntimas da civilização. Isto é: que o sujeito, ele próprio, seja capaz de se punir, de se reconhecer responsável pelos crimes que comete. Que se o juiz vem a ser criminoso, que se puna como tal sem intermédio de terceiros.
Outro motivo não vejo para Freud ter escolhido Rei Édipo, e não o Príncipe Hamlet (onde o complexo de édipo é muito mais evidente, e mais neurótico), para fundar a Psicanálise: Hamlet é incapaz de reconhecer-se como autor, ao menos no nível do desejo, da morte do pai – a culpa é sempre dos outros. E nisso, faz uma série de atuações patéticas, para tentar pousar de um bastião da moral que, evidentemente, não é. Édipo, tendo cometido ele próprio um crime, sem o saber, não culpa sequer aos deuses: vai se haver consigo mesmo, de modo a crescer com isso.
Não a toa, num texto de 1907 chamado “Tipos psicopáticos no palco”, Freud trata de como a psicopatia no palco serve para nos manter, na vida real, fora dela. Mas Gilmar Mendes faz da vida um palco, e nela psicopatiza. No mesmo ensaio, Freud diferencia o herói trágico do psicopático. Os de Shakespeare, incapazes de se retificar e mortos por seus próprios desejos algo sádicos, são psicopáticos; os de Sófocles, retos, fazem de seu possível crime um trampolim pra condição de heróis ou profetas, porque “cortam na própria carne”, diria o Presidente da República (que, ao arrepio dos moradores de Higienópolis, parece entender mais de tragédia grega – e de ética, portanto – do que o suposto-psicanalista dos moradores de tal bairro, Jorge Forbes).
O atual (e espero que por pouquíssimo tempo) Presidente do Supremo, quando prestes a ficar público sua relação criminosa, age como Hamlet: a culpa é do Juiz De Sanctis, do delegado Protógenes, de quem quer que seja – menos dele. E ao agir assim sua culpa fica ao mesmo tempo maior, mais visível, e menos expiada. O que poderia ser um momento de a Justiça cegar seus próprios olhos para ver melhor, prefere tentar cegar aos outros – “cegar de tanto ver”, para citar alguém tão reconvexo quanto eu, para que ninguém enxergue cousa alguma. Por graça do mecanismo de recalque e das ambivalências próprias a ordem do significante, o tiro sairá pela culatra.
A Justiça brasileira deveria ser, eticamente, a Casa da Lei. Mas ela parece ser psicótica, foracluindo dela a lei. Ou perversa: usando a lei ao seu bel-gozo, para mais-gozar. Quando sai disso, fica evidentemente neurótica, com o recente acting-out, entre outras pululantes formações do inconsciente, de Sua Excelência (por pouco tempo, espero) Gilmar Mendes.
Falta nestas plagas “ao menos um que diga sim a castração”. Algo como um certo rei, enterrado em Atenas no sec VII a.C., um dia fez...


Lucas Portela, psicólogo graduado pela UFBa, pós-graduado em Saúde Mental pela Faculdade de Medicina da UFBa e escritor

2 comentários:

Anônimo disse...

Otimo texto!
Melhor ainda é saber. Que Foi escrito por uma pessoa tão querida a mim.
Saudades amigo Lucas .
Bruno Sant'Anna

ex amelias disse...

Oi, Bruno
Visite o blog de Lucas: o ultimobaile dos Guermantes
Bjs